[...] dentro da estrutura das leis conhecidas há possibilidades ainda mais notáveis. As micromáquinas, por exemplo. Hoje em dia, as micromáquinas estão a começar a ser patenteadas – por exemplo, um motor eléctrico com menos de um milímetro de comprimento que poderia, segundo o Prof. Johannes G. Smits, accionar um robot do tamanho de uma formiga.
“Imagine o que poderia fazer com uma formiga, se conseguisse controlá-la”, diz Smits, um engenheiro electrotécnico da Universidade de Boston, que detém a patente do novo motor. “Poderia fazê-la entrar no quartel-general da CIA.” A energia para accionar o micro-robot proviria de um micromicrofone que converte o som em energia.
Não é preciso ter grande imaginação para avaliar o que uma infestação de formigas robóticas poderia fazer a uma instalação de radar inimiga, ou a motores de aviões, ou a um centro de computadores.
Essas micromáquinas, contudo, são enormes em comparação com as nanomáquinas que estão para vir. Se as micromáquinas são suficientemente pequenas para manipular células individuais, as nanomáquinas podem manipular as moléculas que constituem essas células. Os nano-robots seriam suficientemente pequenos para actuar como submarinos na circulação sanguínea dos seres humanos, e presumivelmente poderiam, entre outras coisas, ser usados para fazer operações cirúrgicas a nível molecular.
A nanotecnologia está em progresso nos Estados Unidos e no Japão, onde os investigadores Yotaro Hatamura e Haroshi Miroshita elaboraram um estudo sobre o Acoplamento Directo Entre o Mundo Nanómetro e o Mundo Humano. Segundo um inquérito feito a vinte e cinco cientistas a trabalhar na nanotecnologia, dentro de dez a vinte e cinco anos não só poderemos criar dispositivos à escala molecular, como poderemos fazê-los auto-reproduzirem-se – o que quer dizer que podemos criá-los.
Aqui, voltamos às “máquinas auto-reprodutoras” a que aludimos anteriormente. Por exemplo, os sensores inteligentes de que temos estado a falar até aqui são extensões perto do final da tecnologia corrente. Mas, daqui a uma geração, diz um físrco da RAND Corporation, “começaremos a ter sensores que… possam penetrar nos sistemas de comunicações, ou sensores que possam permanecer lá durante vinte anos, vivos, à espera de serem activados a distância. Poderiam ter o tamanho de cabeças de alfinete por baixo do chão”.
Imagine-se, pois, sensores e minas super-inteligentes, alguns de nanodimensões, que possam reproduzir-se, como foi sugerido nos parágrafos anteriores. Imagine-se agora um cenário em que uma força policial global os semeia sobre um Estado pária e os programa para se reproduzirem a uma determinada densidade em regiões militarmente sensíveis. Praticamente indetectáveis e inofensivas, as minas poderiam ser selectivamente armadas do exterior por minúsculos impulsos de energia. Nessa altura, o Saddam Hussein local é avisado de que deverá fechar as suas fábricas de armas químicas se não quer ver explodir todas as suas bases militares. A menos que, evidentemente, o inimigo os reprograme. Ou que elas se recusem a parar de se reproduzir. Evidentemente, tudo isto, neste ponto, não passa de fantasia. Mas também o eram as máquinas voadoras de Leonardo da Vinci quando ele as desenhou.
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Até mesmo a Rússia, que tinha jurado e trejurado eliminar as armas químicas, prendeu recentemente [em 1993] dois cientistas, Vil Mirzayanov e Lev Fyodorov, por terem revelado à imprensa que estava a ser produzida uma nova arma química num laboratório de Moscovo, depois de o presidente russo Yeltsin se ter pronunciado a favor dos acordos com os Estados Unidos para se livrarem desses tóxicos.
Quanto aos agentes biológicos de guerra – sob muitos aspectos as piores armas de destruição maciça –, sabe-se agora que os trabalhos relacionados com armas ofensivas biológicas prosseguiram na União Soviética, muito depois de ter assinado um tratado, em 1972, banindo essas armas; muito tempo depois de essas actividades terem sido negadas por Gorbachev; muito tempo depois de o Estado soviético se ter desmoronado e ter sido substituído pela Rússia; e mesmo depois de Yeltsin ter publicamente ordenado que acabasse a investigação para a guerra biológica. Esse trabalho incluía – e pode ainda incluir – investigações laboratoriais para produzir uma “superpeste” geneticamente criada, capaz de dizimar metade da população de uma pequena cidade em curto espaço de tempo.
Quem, num país politicamente dividido e à beira da anarquia, controla os agentes patogénicos que permanecem, sem dúvida, nos laboratórios da ex-União Soviética? E até que ponto estarão seguros?
Em 1976, os soviéticos, indubitavelmente conscientes dos horrores criados nos seus próprios laboratórios, pediram a interdição internacional das armas exóticas. Avisaram, nessa altura, da hedionda possibilidade da existência de armas para raças específicas – geneticamente preparadas para escolher e dizimar apenas os membros de grupos étnicos seleccionados –, a perfeita arma para o genocídio, numa guerra racial. Em 1992, Bo Rybeck, director do Instituto Sueco de Investigação para a Defesa Nacional, salientou que, à medida que nos tornamos capazes de identificar as variantes de ADN dos diferentes grupos raciais e étnicos, “poderemos determinar as diferenças entre pretos e brancos e orientais e judeus e suecos e finlandeses, e criar um agente que mate apenas um grupo [escolhido]”. Pode-se imaginar os usos que poderiam ser dados a essa tecnologia pelos “depuradores étnicos” de amanhã.
O aviso em relação às armas contra raças específicas apresenta uma nova urgência, à luz dos recentes progressos relacionados com a Iniciativa de Genomas Humanos, que visa descobrir os segredos do ADN. Um passo mais adiante, pode a bio-engenharia, ou engenharia genética, servir para alterar os soldados ou criar “para-humanos” que possam fazer as guerras. Fantástico, sem dúvida. Mas já não fora dos limites das possibilidades. [...]»
[Alvin e Heidi Toffler, Guerra e Antiguerra: Lisboa, trad. Clarisse Tavares, Livros do Brasil, 1994]
via FRENESI – Livros: Vozes Razoáveis (650): Da natureza da guerra, 2.